O funk carioca chegou ao K-pop por meio de um pacote de samples no Splice
Will Lisil

Existe um momento em muitos discos pop recentes em que a bateria acelera de repente, os graves ficam mais pesados e tudo passa a balançar de lado. Isso é funk carioca, e há quase uma década ele vem reconfigurando discretamente o som da música mainstream.
O que torna a história interessante é o caminho. Este é um som feito nas favelas do Rio de Janeiro, em festas montadas com equipamentos emprestados, e ele chegou aos maiores estúdios do mundo em parte porque dois produtores subiram alguns loops para a internet.
De onde o som realmente vem
O funk carioca tomou forma no Rio de Janeiro a partir dos anos 1980, construído a partir do Miami bass e de discos de funk americano que chegavam à cidade e eram refeitos para as pistas locais. Cresceu nos bailes, as festas de sistema de som que deram à música seu nome e sua função, e foi feito majoritariamente por artistas e produtores negros dos bairros periféricos da cidade.
Essa origem moldou tudo na forma como o gênero é ouvido. Como observou o Rio Times em uma análise da ascensão global do gênero, o funk passou décadas resistindo à repressão e à criminalização dentro do país antes de conquistar a aceitação do mainstream, e hoje é creditado, ao lado do sertanejo, por impulsionar o crescimento do streaming no Brasil. Uma música que precisou defender a própria legitimidade em casa é hoje uma das exportações mais reconhecíveis do país.
O que faz uma batida de funk carioca
Ao desmontar uma faixa, aparecem alguns ingredientes constantes. O DNA rítmico vem do Miami bass, que dá ao gênero seu padrão de bumbo sincopado e marcante, em vez do quatro por quatro do house. Os andamentos são rápidos, e boa parte do material moderno fica perto de 150 batidas por minuto.
Sobre isso se apoia uma paleta incomumente aberta. Produtores trazem flauta, atabaque, berimbau e piano ao lado de sintetizadores e baterias eletrônicas, e por isso duas faixas de funk podem soar quase nada parecidas e ainda assim serem inconfundivelmente do mesmo gênero. Se você leu nosso texto sobre como todo reggaeton compartilha um mesmo padrão de bateria, aqui a situação é o oposto: o funk carioca se define menos por um padrão fixo do que por uma pegada e por um peso de grave.
Os vocais importam tanto quanto a bateria. A pergunta e resposta é central, e o MC é uma presença viva, não um ornamento de estúdio, herança direta de uma música feita para a festa e não para o fone de ouvido.
Os subgêneros que vale conhecer
O gênero não é uma coisa só, e conhecer as ramificações torna a escuta muito mais recompensadora.
Mandelão é mais escuro e minimalista, construído sobre graves pesados e distorcidos. Bruxaria avança para o lado mais sombrio e percussivo, com loops cortados e hipnóticos. Automotivo é o som feito para sistemas de som de carro, puro impacto e repetição. Brazilian phonk é a vertente de travessia que mais longe chegou nas plataformas internacionais.
Há híbridos também. O funk-hall cruza o gênero com o dancehall, e o funk techno o empurra para a pista de clube. Ao lado da música está o passinho, o estilo de dança de pés rápidos que cresceu junto e é boa parte de como o som se espalha na internet.
Vale conhecer ao lado dele o tecnobrega, uma tradição à parte, vinda da região amazônica. Cresceu nos bairros periféricos de Belém, no Pará, movido pelas aparelhagens, sistemas de som enormes que funcionam de maneira parecida com os bailes cariocas, e mistura techno com padrões de bateria do rock e sonoridades amazônicas tradicionais. Seu alcance é discretamente amplo: o Pet Shop Boys usou um remix de tecnobrega de Waldo Squash e recorreu ao gênero no álbum Super, de 2016, Miss Tacaca tocou no Boiler Room do Reino Unido e o DJ Necropsycho levou o som até festivais na Índia.
Como a batida foi parar no K-pop
Aqui está o caminho que surpreende. A dupla brasileira de produção Tropkillaz, formada por Andre Laudz e Ze Gonzales, subiu loops de funk para a plataforma de samples Splice. Esses loops foram então usados por artistas de K-pop, e o Tropkillaz passou a produzir beats originais para discos do gênero, incluindo trabalhos com aespa e uma colaboração com TXT.
A reportagem da Remezcla sobre a difusão global do gênero detalha esse percurso, junto de uma longa lista de outras travessias: Beyonce usando samples de baile funk, Drake remixando "Ela e do tipo" de Kevin O Chris, Tove Lo com participação de MC Zaac e remixes de funk envolvendo Maluma e Karol G.
O mesmo texto cita o professor Thiago de Souza sobre por que o gênero demorou tanto a ser classificado como música eletrônica: "As pessoas tendem a associar gêneros musicais a grupos sociais... música eletrônica... para pessoas brancas, europeias, de classe média. Mas o funk é feito principalmente por pessoas negras." Visto assim, o pacote de samples fez algo discretamente radical. Permitiu que o ritmo viajasse por mérito próprio, sem precisar de autorização da categoria de gênero de ninguém.
Os artistas por onde começar
Para quem está chegando agora, alguns nomes dão rapidamente a dimensão do gênero.
Anitta é a figura mais reconhecida globalmente, e seu álbum Funk Generation é a declaração mais clara do gênero feita para um público internacional. Ludmilla lota arenas no Brasil e transita com facilidade entre o funk e o pop. Pedro Sampaio atua como artista e produtor e é uma das pessoas que definem o som da versão mainstream atual.
A partir daí, Kevin O Chris é essencial para o lado mais acelerado, perto dos 150 bpm, MC Fioti para o instinto de travessia que gerou "Bum bum tam tam", e MC Zaac e Dennis DJ para o lado da produção. Bibi Babydoll vale a pena para quem quer algo mais próximo do som de clube atual.
Como a cena soa agora
Conversando com quem faz, o clima é de expansão, e não de preservação. Na reportagem da Dazed de 2026 com jovens brasileiros que trabalham no gênero, o produtor e DJ RD DA DZ7 descreveu uma cena que se divide de forma produtiva em duas direções: "O funk está evoluindo... Alguns trazem de volta elementos antigos do baile... Outros estão num movimento acelerado."
O DJ Ray resumiu o apelo em termos mais simples na mesma reportagem, descrevendo o que acontece na pista: "Quando eu toco funk, tenho essa sensação de comunidade, de celebração." E o DJ Vicx fez o convite mais gentil possível aos novos ouvintes, notando que muita gente fora do Brasil "apenas sente o gênero sem conhecer sua história".
A cultura mais ampla vem correndo atrás. O drama musical Funk estreou no Tribeca Film Festival neste ano, acompanhando a ascensão de uma jovem dentro da cena.
Por onde começar a ouvir
Comece com uma faixa de cada ramificação, em vez de uma playlist de maiores sucessos. Pegue algo de Funk Generation para a versão internacional mais polida, um disco de Kevin O Chris para a corrida dos 150 bpm e uma faixa de mandelão ou bruxaria para a versão crua e grave que a maioria dos ouvintes internacionais nunca alcança.
Depois faça o que o DJ Vicx pedia e leia um pouco sobre de onde o som veio. O funk carioca recompensa isso, porque os detalhes que você aprende são audíveis: quando se sabe que a batida se apoia no Miami bass e não no house, quando se consegue ouvir um berimbau sob uma linha de sintetizador, o gênero inteiro se abre. Foram quarenta anos sendo subestimado, e agora ele está dentro de discos feitos do outro lado do planeta. É motivo suficiente para ouvir com atenção.
Este artigo foi assistido por IA e editado para garantir precisão.
Frequently asked questions
O que é funk carioca?
O funk carioca é um gênero de dança brasileiro que tomou forma no Rio de Janeiro a partir dos anos 1980, construído sobre influências do Miami bass e do funk americano e desenvolvido nos bailes dos bairros periféricos da cidade.
Qual a diferença entre o funk carioca e o funk americano?
Apesar do nome em comum, o funk carioca é um gênero de dança eletrônica. Sua base rítmica vem do Miami bass, com padrões de bumbo sincopados, graves pesados, andamentos rápidos frequentemente perto de 150 bpm e vocais de pergunta e resposta conduzidos por um MC.
Quais são os principais subgêneros do funk carioca?
O mandelão é mais escuro e minimalista, a bruxaria é mais sombria e percussiva, o automotivo é feito para sistemas de som de carro e o Brazilian phonk é a vertente que mais circulou internacionalmente. Funk-hall e funk techno são estilos híbridos.
Como o funk carioca chegou ao K-pop?
A dupla brasileira Tropkillaz subiu loops de funk para a plataforma de samples Splice, onde produtores de K-pop os encontraram. Depois disso, o Tropkillaz passou a produzir beats originais para discos de K-pop, incluindo trabalhos com aespa e uma colaboração com TXT.
Quais artistas de funk carioca ouvir primeiro?
O álbum Funk Generation, da Anitta, é a porta de entrada internacional mais clara. Ludmilla e Pedro Sampaio mostram a versão mainstream brasileira, enquanto Kevin O Chris, MC Fioti, MC Zaac e Dennis DJ cobrem os lados mais acelerados e mais voltados à produção do gênero.