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Music & Artist Economy

Por que estrelas do funk de São Paulo estão criando os próprios selos?

Will Lisil

8 min read
MC Hariel, the São Paulo funk MC, in a press portrait
MC Hariel, who announced his exit from GR6 on 19 October.

Em 19 de outubro, MC Hariel, uma das vozes mais conhecidas do funk de São Paulo, anunciou o fim de sua parceria profissional com a GR6, produtora da qual fazia parte desde 2014, informou a Billboard Brasil. Um mês antes, MC Don Juan abriu uma nova fase para a Restrito, gravadora que fundou, trazendo sócios para ajudá-lo a descobrir e desenvolver novos artistas.

Dois dos MCs mais reconhecidos da cena estão construindo as próprias estruturas no mesmo momento em que sua música viaja mais longe do que nunca. O funk brasileiro é um dos gêneros que mais crescem no Spotify, e o som grave das festas de rua de São Paulo já aparece em sets de DJs pelo mundo. Veja o que está mudando, como essa música soa e por onde um novo ouvinte pode começar.

Um ciclo de 12 anos termina com um EP de despedida

Para marcar o fim da passagem pela GR6, Hariel prepara o EP Aplausos Não Pagam As Contas. Será seu último lançamento com a produtora e terá participações de MC Lkzin e Gblack, dois artistas mais jovens do elenco da GR6. A Billboard Brasil leu a escolha dos convidados como uma ligação entre a despedida de Hariel e a nova geração do funk paulista. A data de estreia e a lista completa de faixas ainda não foram divulgadas.

Hariel não está saltando no escuro. A gestão de sua carreira agora fica com a Zaori, produtora cultural que ele criou em 2025, e seus discos continuarão saindo pela Xaolin Records, selo fundado por ele. Em novembro de 2025, a Xaolin assinou um acordo de distribuição com a Warner Music Brasil para ampliar o selo e apoiar novos artistas independentes. Na época, a Billboard Brasil informou que Hariel somava mais de 4,3 bilhões de streams de áudio e quase 9 milhões de ouvintes mensais no Spotify.

Em comunicado reproduzido pela revista, ele agradeceu à produtora que o lançou: "Tenho muita gratidão pela GR6. Foi ali que minha vida começou a mudar de verdade, onde consegui realizar sonhos, ajudar minha família e ver os planos do moleque da Vila Aurora ganharem dimensão". Ele disse ainda que segue "com muita esperança, trabalho e vontade de continuar fazendo o funk caminhar, sempre com verdade e abrindo espaço para os nossos".

Os anos de GR6 renderam músicas como "Lei do Retorno", com MC Don Juan, e "Maçã Verde", com Caio Passos. Em agosto de 2024, ele lançou o álbum Funk Superação, com Gilberto Gil, IZA, Péricles e Ice Blue. "A Dança", sua faixa com Gilberto Gil, rendeu uma indicação ao Grammy Latino de 2025 na categoria Melhor Interpretação Urbana em Língua Portuguesa. Ele levou o projeto ao Palco Favela do Rock in Rio em 2024 e, em 2026, levou o funk a um espetáculo sinfônico desenvolvido com o maestro Xuxa Levy.

MC Don Juan quer contratar a próxima geração

MC Don Juan conhece bem o caminho entre uma primeira gravação e uma música cantada por multidões. Aos 25 anos, com mais de uma década de carreira, ele agora quer atuar também do outro lado desse caminho. Em setembro, a Billboard Brasil informou que a Restrito passou a ter o Grupo Sua Música e a Powerhouse Music Group como sócios, com Don Juan no centro da operação criativa: da descoberta de artistas e produtores à escolha de repertório e ao desenvolvimento dos lançamentos.

"Tem muita gente com talento esperando uma oportunidade de mostrar o que sabe fazer", disse o MC à revista. "Quero estar perto desse processo: ouvir, entrar no estúdio, pensar o repertório e ajudar a construir o caminho. A Restrito é uma aposta minha em quem vem depois e no que a gente pode criar junto."

Os sócios trazem forças diferentes. O Grupo Sua Música começou em 2010 como um site em João Pessoa onde artistas de forró podiam compartilhar suas gravações e hoje reúne distribuidora digital, produtora artística e editora. A Powerhouse Music Group soma experiência com catálogos, gestão de direitos e investidores.

O primeiro lançamento da nova fase reúne muitas vozes. "Não Sei Porque Eu Acreditei" junta Aaron Modesto, MC Don Juan, MC Ryan SP, MC Meno K e MC Alan Jr, com participação de MC Fidelis, B MC, MC Dena, MC DR, Gaab MC e DJ Guh Mix. Segundo a Billboard Brasil, o line-up soma mais de 95,7 milhões de ouvintes mensais.

Construir a própria plataforma é um hábito antigo por aqui. A geração do funk de São Paulo cresceu distribuindo sua música pela internet, em canais como o KondZilla, que tinha 67,6 milhões de inscritos quando a NOTION fez um retrato da noite da cidade, em março de 2025.

Como soa o funk de São Paulo de perto

O baile funk ganhou forma nas favelas do Rio de Janeiro nos anos 1990, misturando Miami bass, electro, hip-hop e freestyle latino na música de festa dos bairros populares do Brasil. São Paulo levou essa base para um lugar mais pesado e mais estranho.

O estilo que define São Paulo é o mandelão. O The Sound Atlas o descreve como um funk "projetado na escala de um paredão de rua", moldado nos bailes e fluxos do estado de São Paulo no fim dos anos 2010. Espere bumbos retos e pesados, graves saturados, percussão metálica e loops curtos que ganham força a cada repetição, geralmente entre 120 e 140 BPM. A NOTION comparou suas letras repetitivas à sensação de estar em um jogo do Corinthians. O nome costuma ser ligado ao Baile do Mandela, festa da cidade litorânea de Praia Grande.

Em volta do mandelão existe uma família de estilos. A bruxaria é a mais sombria, com sintetizadores estridentes e samples de filme de terror. O ritmado é outra vertente do mesmo som. O funk ostentação é o da exibição, com MCs falando de carros, joias e da vontade de vencer. Muitas faixas circulam primeiro como montagens ou automotivos, sequências de DJ em loop feitas para aumentar a pressão pela repetição, e por isso tanta coisa parece feita para o som do carro.

Fora do Brasil, o mandelão às vezes é rebatizado de "Brazilian phonk". O The Sound Atlas faz uma observação justa sobre esse rótulo: ele ajuda as pessoas a encontrar a música, mas a história e a linguagem pertencem ao funk e à cultura dos bailes de São Paulo.

Os DJs que levam o som para fora do Brasil

DJ Blakes começou mixando para paredões em festas de rua do bairro e hoje é um artista que faz turnês internacionais. "Meu estilo era marginalizado, mas agora chega a milhares de ouvintes", disse ele à NOTION. "Passou de um gênero dos bailes de favela a ser tocado no mundo inteiro. Levar nossa música para outros lugares ajudou o som a crescer e evoluir." Seu set no Boiler Room em 2024, tocado entre dois paredões enormes, salta de apitos e steel drums para batidas de house e 808s estrondosos.

DJ K, produtor de Heliópolis e um dos nomes de frente da bruxaria, já lançou música pela Nyege Nyege Tapes, selo sediado em Uganda. Em 2024, a rádio londrina NTS Radio apresentou a cena de vez com funk.BR, uma coletânea de 22 faixas dedicada a São Paulo. O Resident Advisor informou que a seleção foi feita por Jonathan Kim e Felipe Maia e traz DJ Blakes, Deekapz, DJ K, MU540, MC GW e outros.

"Temos muitos artistas com substância e musicalidade que foram ignorados por muito tempo", disse à NOTION SIXX4SIXX, chefe do selo Tijolo Records. "Em algum momento, isso ia explodir, e agora está acontecendo."

Por que o mundo está ouvindo agora

Os números dão razão a ele. O relatório Loud & Clear do Spotify, publicado em março, colocou o funk brasileiro entre os gêneros que mais crescem na plataforma: entre os gêneros que geraram mais de US$ 50 milhões em royalties no Spotify em 2025, o funk brasileiro cresceu 36%, à frente do K-pop, com 31%. O mesmo relatório mostrou que, em média, os artistas passam a receber mais da metade de seus royalties de fora do país de origem até dois anos depois da estreia.

O tema voltou à pauta em Miami Beach em 19 de outubro, primeiro dia da Billboard Latin Music Week. Um painel chamado Brazil on the Rise, apresentado pela Believe, levou ao palco o MC Kako, Diego Douetts, cofundador do selo Sonar Music, Alejandra Olea, da Believe, e Bruno Duque, da TuneCore. Os números apresentados ali apontaram crescimento de 14,1% do mercado de música brasileiro no último ano, com o consumo de artistas brasileiros no Spotify em alta de 24% e o funk, de 36%.

Kako falou por muitos colegas. "Venho construindo minha carreira no Brasil há vários anos, e não tem sido fácil. Então, hoje, quando vejo minha música chegando a pessoas de outros países, é incrível, principalmente por ser funk, um ritmo muito especial porque vem de um lugar muito real", disse. E completou: "A gente canta o que vive, o que acredita, as nossas lutas. E, mesmo quando as pessoas não entendem o que estamos dizendo em algumas faixas, elas sentem o ritmo, sentem a vibe das nossas músicas".

Os participantes apontaram a colaboração entre artistas, o empreendedorismo independente e a distribuição digital como motores da expansão brasileira, exatamente as ferramentas que Hariel e Don Juan estão construindo para si.

Por onde começar a ouvir

Se o funk de São Paulo é novidade para você, estas faixas, todas listadas pelo The Sound Atlas entre as obras que definem o mandelão, formam uma ótima primeira playlist:

  • "A Culpa Eh da Cachaça", de MU540 e MC GW
  • "As Mais Top", de MC Bibi Drak e DJ Dayeh
  • "Beat das Galáxias", de DJ Blakes, MC GW e DJ Novaes
  • "Montagem Phonk Brasileiro", de DJ Arana
  • "Ritmado Mágico no Sumarézinho", de Deekapz
  • "Me Viu no Fluxo ZS", de DJ K, DJ Knote Original e um time de MCs

Para o lado dos MCs, comece por "A Dança", de Hariel com Gilberto Gil, e depois ouça a coletânea da NTS para um passeio de 22 faixas pela cidade. E, se você gosta de ver um som de rua local conquistar o mundo, nossa matéria sobre como o UK garage saiu das rádios piratas e virou a música do verão do TikTok no Reino Unido conta uma jornada parecida.

Uma cena que escreve as próprias regras

O que une o EP de despedida de Hariel, o selo de Don Juan e a ida de Kako a Miami é a autonomia. Os MCs e DJs que construíram o funk de São Paulo em paredões de rua e canais na internet agora querem voz no negócio que leva sua música adiante, e estão usando essa posição para abrir portas para os artistas que vêm depois.

No TipTop.music, compartilhamos esse instinto. Acreditamos que artistas independentes merecem uma ligação direta com quem ama sua música, e por isso cada play no TipTop é uma gorjeta para o artista que fez a faixa. Se você faz música e quer chegar a novos ouvintes do seu jeito, pode começar pelo TipTop para Artistas.

Para quem ouve, o convite é simples. O som dos bailes de São Paulo nunca foi tão fácil de encontrar: aperte o play, aumente o volume e deixe o grave falar.

Frequently asked questions

Por que MC Hariel está saindo da GR6?

Hariel agradeceu à GR6 por mudar sua vida e disse que segue para um novo momento. A Billboard Brasil informa que a independência já era um objetivo antigo: sua carreira já é gerida pela própria produtora, a Zaori, e seu selo Xaolin Records lança suas músicas com distribuição da Warner Music Brasil.

O que é o mandelão?

O mandelão é um estilo paulista de funk feito para paredões de rua, com bumbos retos e pesados, graves distorcidos, percussão metálica e loops repetitivos, geralmente entre 120 e 140 BPM. O nome costuma ser ligado ao Baile do Mandela, em Praia Grande.

O que é o funk bruxaria?

A bruxaria é uma vertente mais sombria do mandelão, conhecida pelos sintetizadores estridentes e samples com clima de terror. DJ K, produtor de Heliópolis, é um de seus principais nomes.

Por onde começar a ouvir o funk de São Paulo?

A coletânea funk.BR, da NTS Radio, dedicada a São Paulo, é uma ótima introdução, com DJ Blakes, Deekapz, DJ K, MU540 e MC GW entre suas 22 faixas. Para o lado dos MCs, ouça "A Dança", de MC Hariel com Gilberto Gil.

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